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22March

TUBARÕES E NORONHA: HORA DE DIZER ADEUS TUBALHAU, BEM-VINDO MERGULHO INTERNACIONAL

Tubarão Limão na Praia do Sueste em Fernando de NoronhaNo dia 29 de março de 2017 acontece uma cerimônia no mínimo notável, e de certa forma lamentável, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Rio de Janeiro. Notável porque marca a entrada formal da OAB - e de várias personalidades importantes do Mergulho e Ecoturismo brasileiros, como o documentarista de Natureza Lawrence Wahba - na campanha pelo fim da venda de carne de tubarões e raias em Fernando de Noronha, e pela criação de um Santuário para esses animais no arquipélago. Lamentável, porque a esta altura do Século XXI uma campanha como esta não deveria sequer precisar ser feita para convencer as autoridades e empresários do mais importante destino de Ecoturismo e Mergulho do Brasil a abandonar essa prática.

Ainda que na cabeça das pessoas comuns sejam as baleias o maior símbolo da preocupação com a conservação marinha, em anos recentes os ambientalistas e pesquisadores têm constatado de que o maior perigo de extinção paira na verdade sobre diversas espécies de elasmobrânquios, o grupo que reúne os tubarões (também chamados nas peixarias e restaurantes de “cação”) e raias, ameaçados gravemente pela sobrepesca. Isso ocorre basicamente porque a maioria desses animais, apesar de serem peixes, têm uma biologia reprodutiva muito parecida com a dos mamíferos: se reproduzem apenas depois de vários anos de idade, produzem poucos filhotes de cada vez (e não milhares como a maioria dos peixes), e muitas vezes habitam, ou se reproduzem em, áreas determinadas do oceano, como é o caso de arquipélagos isolados - caso de Fernando de Noronha - onde podem ser extintos localmente pela pesca indiscriminada.

 

            A matança dos tubarões não é um problema apenas para eles mesmos. Como predadores de topo de cadeia, eles são absolutamente essenciais à saúde dos ecossistemas marinhos, contribuindo para manter em equilíbrio as populações de outras espécies. Estudos científicos recentes têm demonstrado que, sem os tubarões, muitos ambientes marinhos, dos recifes de coral aos bancos de algas, sofrem enormes danos e se fragilizam.

 

            Depois de décadas de matança totalmente desregulada, os tubarões do mar brasileiro estão, em uma palavra, desaparecendo. Locais com grandes concentrações desses animais onde nós, mergulhadores, costumávamos vê-los regularmente, estão ficando desertos. A pesca - tanto a industrial, oceânica, como a equivocadamente endeusada pesca “artesanal”, costeira - está destruindo impunemente a biodiversidade marinha do Brasil.

 

            É essa a razão pela qual mais e mais gente vem se manifestando contra a continuidade da venda de carne de tubarões e raias em Fernando de Noronha. É um enorme, gritante contra-senso que em um paraíso ecológico marinho, em que a Natureza é o principal atrativo e a conscientização ambiental um dos motes da visitação turística, ainda se permita que essa venda continue. É ilegal? Não, porque até o momento as normas legais não proíbem esse comercio anacrônico, mas é absolutamente imoral e contraditório com a vocação turística do arquipélago.

 

            O contra-senso é ainda maior porque o maior promotor dessa venda de carne, na forma do tristemente famoso “bolinho de tubarão”, é o próprio Museu do Tubarão de Fernando de Noronha. Um estabelecimento que tem enorme importaria educativa e de conscientização, mas que põe seu papel em xeque ao se recusar, mesmo após anos de diálogo e de plena consciência da gravidade da situação dos tubarões, a parar com esse triste comércio. Além dele, uma ínfima minoria de outros restaurantes serve carne de tubarão, e parar com essa venda não afetaria negativamente, sob nenhuma forma, a atividade econômica de Noronha.

 

            São muitas as desculpas que ouvimos ao longo do tempo para a continuidade dessa prática antiecológica. A principal, e talvez a mais falaciosa, é de que “os tubarões vendidos aqui não são pescados no arquipélago, mas comprados no continente”, seguida de “os tubarões que se vendem aqui não estão ameaçados de extinção”. Ainda que aceitássemos essa lógica absurda de que estaria tudo bem matando os tubarões de outras regiões, a primeira afirmação encobre o fato de que, apesar de se comprar a carne no continente, os tubarões estão sendo pescados à extinção no próprio entorno de Fernando de Noronha pelas frotas industriais, que os desembarcam e vendem… no continente! Quanto à afirmação de que não se vende espécies ameaçadas, simplesmente não existe fiscalização que determine a espécie de tubarão envolvida no comércio (aliás, o Brasil não tem qualquer tipo de estatística pesqueira desde 2010, muito menos determinação de que animais são pescados e em que quantidade!). Portanto, o tubalhau, bolinho, ou qualquer forma de prato de tubarão vendido em Noronha contribui, sim, pra destruir a vida marinha no próprio arquipélago e seu entorno.

 

            Mas a questão não se resume a apenas proibir a venda e o desembarque desses animais ameaçados e vulneráveis no arquipélago. Fernando de Noronha é o último lugar do Brasil onde se pode mergulhar regularmente com diversas espécies de tubarões, e também de raias. O mergulho com tubarões vem adquirindo destaque e enorme importância econômica no cenário internacional, rendendo vultosas somas em dólares para as comunidades onde é praticado. Noronha poderia se beneficiar desse turismo de qualidade e alto retorno, mas pra isso precisa acabar com a falsa “cultura local” do bolinho e abraçar de vez a conservação e promoção turística de seus tubarões para o Mergulho. Essa foi a razão pela qual a Divers for Sharks - Mergulhadores pelos Tubarões propôs ao Governo do Estado de Pernambuco a criação do Santuário de Tubarões e Raias de Fernando de Noronha, uma medida que não apenas encerre a daninha venda de carne desses animais no arquipélago mas também o promova ativamente como destino de Mergulho e observação desses animais fascinantes.

 

            Infelizmente, até o presente parece que o Governo do Estado e o Conselho Distrital de Noronha têm preferido ficar ao lado da ínfima minoria que lucra com a matança de tubarões do que defender o interesse comum de todos os moradores e de todo o Brasil no sentido de fazer de Noronha um pólo de atração do turismo internacional de Mergulho de alta qualidade que quer desfrutar de ambientes marinhos saudáveis, com tubarões vivos. Temos esperança de que isso mude, mas enquanto não mudar, cada um de nós pode e deve fazer sua parte: quando visitar Noronha, não coma bolinho de tubarão ou tubalhau, visite o Museu do Tubarão e diga aos seus donos que prefere vê-lo promover a proteção e não a matança de tubarões, questione os moradores e empresários locais sobre sua posição, estimule o dialogo aberto sobre o assunto. Uma Noronha do Mergulho e dos tubarões vivos, e não do bolinho e da matança, é o caminho do futuro para o destino de Ecoturismo mais querido dos brasileiros.

 

Written by José Truda Palazzo Jr

About the Author

José Truda Palazzo Jr

Mergulhador PADI Advanced Open Water, Co-fundador do Divers for Sharks e do Comitê Pró-Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha.